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EDUCOMUNICANDO - 124
 
     
     
     
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Entrevista com Silvio Meira

Entrevista concedida para o site Planeta Inteligente

Entrevista postada no blog "dia a dia, bit a bit" em 17/06/2009.

 

Planeta Inteligente: A cada dia, nos deparamos com mais e mais inovações tecnológicas. O ritmo desse desenvolvimento de novos bens tecnológicos parece incessante. Aonde chegaremos?

Silvio Meira: Não chegaremos; inovação não é um destino, é uma rede de processos. É um ideal [!], imperfeito e impermanente. Iremos às estrelas, se não destruirmos o planeta antes [e nós todos, ao mesmo tempo], mas não chegaremos a lugar algum, pois sempre haverá muito mais a explorar do que nossa capacidade de fazê-lo. E inovação é cada vez mais baseada em tecnologia, mas inovação não é tecnologia; inovaçao é a mudança, no mercado, do comportamento de agentes, como fornecedores e consumidores de qualquer coisa. Enquanto houver os tais agentes, haverá mudanças… não há limites teóricos ou práticos para tal.

PI: A discussão sobre avanços tecnológicos envolve um paradoxo interessante, no que diz respeito ao acesso a essas inovações. Como um país como o Brasil, com imensos abismos de renda e educação, pode resolver esse problema?

SM: Resolver, acho que não pode, e não vai. Até porque o acesso ou não, a qualquer tipo de bem ou serviço, é limitado por recursos disponíveis. Quando queremos acesso universal a alguma coisa, estamos falando de políticas públicas, daquelas que se forem realmente eficazes [na solução do problema] e eficientes [no uso dos recursos, públicos e privados], resolvem o problema. O Brasil tem dado exemplos de classe mundial como fazer isso, vide a vacinação contra poliomielite e efetiva extinção da doença em território nacional e o programa nacional de AIDS.

Tais sucessos poderiam até ser repetidos no contexto do acesso a banda larga, por exemplo. Mas, como é difícil demonstrar, ainda, que quem não tem banda larga não tem internet e quem não tem internet, hoje, está condenado à uma dose bem acima da aceitável de miséria de conexões, conhecimento e, como consequência, passa a ser um desabilitado econômico…  ainda passaremos muito tempo sem que se trate, com a urgência e profundidade que se deveria tratar, do problema de acesso à internet, por exemplo. Isso só para citar um dos problemas de acesso que temos…

PI: O Nordeste do Brasil sofre com índices sociais alarmantes, com ênfase nas questões de educação e saúde. Qual é a saída para essa situação?

SM: Educação de qualidade em todos os níveis, aliada a um processo  de criação de oportunidades para todos, que seja também perceptível para todos. As pessoas têm que ter esperança: têm que ver, claramente, que se fizerem sua parte, estarão em condiçoes de participar de forma mais competente  de um universo de oportunidades, de trabalho, benefícios, recompensas, crescimento… sem o que não adianta, simplesmente, tentar educar. Ou conter a violência.

Se eu não conseguir me projetar nas coisas boas do mundo ao meu redor, porque eu haveria de me preocupar com meu futuro? OU, de mais de uma forma, com o futuro dos outros? Nós temos que chegar a um ponto, na sociedade brasileira como um todo, em que as pessoas percebam que a marginalidade e o crime, principalmente no degrau de violência que ocorre na periferia das grandes cidades, não é uma alternativa de vida. Para tal, é preciso criar esperança… e eu não vejo nenhuma outra saída a não ser combinar educação de qualidade, prática, para a vida, com a criação de oportunidades. Para fazer isso, é preciso mudar muita coisa no Brasil e, principalmente o entendimento social da exclusão educacional e a direção e forma de funcionamento do Estado…

PI: Em entrevista ao Planeta Inteligente, Rodrigo Baggio, do Comitê para a Democratização da Informática (CDI), disse que as lan houses são subestimadas pelo Estado. Você concorda com essa afirmação?

SM: Sim, e muito. Mas elas são um bom sinal de que a comunidade e seus empreendedores não estão esperando pelo Estado. E isso é muito bom. Estive recentemente em cidades remotas do interior do Brasil, com dez, doze mil habitantes, onde há trinta lanhouses. Aqui no Recife, no bairro da Bomba do Hemetério, há algo como trinta lanhouses também, para cerca de 12.000 pessoas. Pode ser que haja uma solução empreendedora natural, por aí, que leve cada 300, 400 pessoas, nas pequenas cidades e na periferia, a sustentar uma lanhouse. O que o governo poderia fazer a mais? Que tal ajudar a formalizar estes pequenos negócios [oferecendo subsídio para seus custos de telecom, em troca?...], melhorar a formação de seus empreendedores, articular suas demandas [e ofertas],… e por aí vai?

O Brasil cobra os mais altos impostos sobre telecom do planeta. Conectividade, aqui, não é tratada como artigo de primeira necessidade. Até parece mais com cigarro e bebida, tal o montante de impostos e taxas cobrados dos prestadores do serviço. Ao mesmo tempo, como não há competição real, o preço dos serviços oferecidos à população em geral, mesmo se os impostos fossem zerados, é muito mais alto do que poderia ser se o ambiente de negócios fosse mais competitivo. Nos dois casos, parece haver um conjunto de coisas cuja melhoria depende do Estado e seus agentes.

O Estado, em função disso tudo e muito mais, pode fazer muito em prol das lanhouses; mas, para fazê-lo, talvez tenha que redesenhar o espaço econômico de telecom e internet no país. E seria mesmo muito bom que o fizesse.

PI: O problema da exclusão digital lhe parece tão grave quanto os já ‘tradicionais’ enfrentados pelo Brasil?

SM: Sim e não. Sim porque, como foi dito antes, exclusão digital é a causa direta da segregação informacional e consequente limitação de acesso a oportunidades de desenvolvimento pessoal e comunitário. E, por outro lado, não: não ter internet  ainda não é a mesma coisa que não ter saúde ou viver em ambientes onde o grau de violência letal contra a pessoa ultrapassa 100 mortos por 100 mil habitantes por ano, que encontramos em muitas regiões das grandes cidades, e principalmente na faixa etária entre 15 e 24 anos.

Inclusão digital poderia ser um instrumento essencial para tratar estas outras exclusões, algumas delas verdadeiramente letais? Sim, sem dúvida. Por que não é este o caso? Aí voltamos ao ponto de partida… e a resposta é, talvez “porque o devido senso de urgência do problema ainda não faça parte das preocupações da sociedade”. Quem acabou com a pólio não foi o Estado ou o governo, mas a sociedade, forçando os agentes públicos a tratar o problema com a urgência e profundidade que deveria ser tratado. No caso da inclusão [ou exclesão] digital… qual é que tem sido, mesmo, o grau de preocupação de quem tem com quem não tem?

Pólio tinha que ser resolvido para todos porque, por razões óbvias, resolver só para as camadas mais aquinhoadas da sociedade não resolvia o problema. No dia em que a vasta maioria da população se convencer que as exclusões digital e educacional, por exemplo, são tão ou mais danosas à sociedade do que doenças endêmicas com as quais nos apavoramos e exigimos uma solução universal, resolveremos o problema. Até lá, haverá paliativos de toda sorte, acompanhados de discursos de mudança, mas nenhuma mudança ou solução de fato.

PI: Vemos alguns governos desenvolvendo programas de inclusão digital. Qual seria a política certa para aumentar o acesso a esses bens de informação?

SM: Não acho que há “uma” política para tratar o problema, muito menos que há alguma “mais certa” do que qualquer outra. Somos um país diverso,  esparso, complexo, temos cidades que são, sozinhas, maiores em renda, população e desigualdade do que muitos países. São Paulo é um tal exemplo, onde parecem conviver Manhattan e Zimbabwe. Acho que temos que instrumentar e empoderar as comunidades para que um processo de evolução natural, incentivado, ocorra dentro do contexto, demandas e velocidade possíveis em cada lugar. Não acredito em grandes programas federais monolíticos que, qual mágica de circo, resolvem problemas muito complexos. Até porque mágica, como se sabe, é de circo mesmo.

PI: A PNAD 2007 mostra que um quinto das residências brasileiras têm acesso à internet. De que maneira você analisa esse dado?

SM: Com muito otimismo. Fico ainda mais otimista quando vejo que há mais de 150 milhões de celulares no país. Celular também é inclusão digital, econômica e social. De uma forma bem mais rudimentar do que acesso à internet em banda larga, mas é. Eu acho que, se acertarmos na universalização de cobertura de 3G país afora, a convergência dos celulares [smartphones] com os computadores [netbooks], combinada com um tratamento fiscal de comunicações que a considere como insumo ao desenvolvimento, educação, saúde e entretenimento da população, ao invés de um vício… vai conectar –e muito bem- quase todo mundo.

Nesse assunto de conectividade, entre muitos outros, sou patologicamente otimista. Não acredito que haja mais um único adolescente no Brasil pensando que não precisa de internet. Pode até não ter e nunca ter usado, mas há uma percepção universal de internet similar à que se tem de conhecimento, hoje: quem não tem sabe que, se tivesse, estaria vivendo mehor e, ainda mais, criando possibilidades de viver cada vez melhor no futuro.

Mais cedo do que tarde, na minha opinião, vamos universalizar acesso à internet, seja pela via comunitária –como é o caso de lanhouses e outros núcleos de acesso comunitário à rede- ou privada, quer por computadores ou celulares. E isso vai ocorrer num tempo bem menor do que o tempo que levou –digamos- energia elétrica que, note-se bem, ainda há quem não tenha, mesmo no Brasil, sem falar do resto da América Latina ou África. E vai ser mais rápido do que TV, que levou meio século. Internet, na prática, tem dez anos no país. Posso estar [muito] errado, mas acho que dentro de mais quinze, no máximo, vai estar universalizada.

 

 

 

 
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