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EDUCOMUNICANDO - 138
 
     
     
     
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Diversidade faz parte da estratégia

Entrevista publicada no Jornal Valor Econômico, em 22/03/2010. Por Rafael Sigollo.

 

A diversidade nas empresas não é uma questão de justiça social, mas uma estratégia de sobrevivência do negócio. As companhias precisam de uma força de trabalho diversificada para atender às necessidades de um mundo novo e complexo. Essa é a opinião de Andrés Tapia, líder mundial da prática de diversidade da Hewitt Associates. Peruano radicado nos Estados Unidos, ele afirma que a formação de uma equipe de trabalho heterogênea requer investimentos, métricas e metas, e poucas empresas entenderam isso.

Tapia ressalta que, embora as equipes diversificadas sejam mais eficientes, a maioria dos líderes não está preparada para comandá-las. "Não se trata apenas de ter sensibilidade e tolerância, mas de possuir as competências interculturais para gerenciar as diferenças."

De passagem pelo Brasil para encontrar clientes, o especialista, que lançou recentemente o livro "The Inclusion Paradox: The Obama Era and the Transformation of Global Diversity" ("O Paradoxo da Inclusão: A Era Obama e a Diversidade Global") conversou com o Valor sobre o tema. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: As empresas ainda tratam o tema da diversidade como um problema para o RH resolver ou já perceberam de fato os benefícios que isso pode trazer aos negócios?

Andrés Tapia: Embora algumas companhias tenham percebido, até agora um número muito reduzido delas entendeu as implicações profundas da diversidade no seu negócio. E apenas entendendo essa realidade as empresas serão capazes de fazer a diferença em seus programas de RH para diversificar sua força de trabalho.

Valor: Por que isso ocorre?

Tapia: Porque nas atividades empresariais isso precisa estar relacionado ao negócio. Nossas empresas estão criando os produtos e serviços que um mercado diversificado e em rápida transformação necessita e deseja? Por exemplo, as empresas brasileiras que definem estratégias para ampliar seu negócio nos EUA sabem como atingir os mercados latino e afroamericano nesse país, que juntos representam 30% da população? As empresas vencedoras são aquelas que aprendem a posicionar seus produtos e serviços junto aos novos compradores. Assim, precisarão de uma força de trabalho diversificada para que possam perceber e atender às necessidades de novos mercados.

Valor: A diversidade nas empresas então não é uma questão social, mas de sobrevivência?

Tapia: O empurrão por trás da diversidade no negócio, mesmo com as conotações de justiça social que ela possui, é vencer no mercado. Trata-se de trabalho árduo, como qualquer aspecto do negócio, seja realizar uma fusão, investir em novos produtos ou formar um efetivo engajado no trabalho. A diversidade não deve ser vista como algo separado do negócio. Visto que uma força de trabalho mais diversificada é de fato mais complexa, sem a gestão adequada ela acabará tendo mais conflitos em função das diferenças, o que prejudica a produtividade. Entretanto, estudos demonstram que, quando bem gerenciadas, as equipes diversificadas são mais criativas, eficientes e eficazes.

Valor: A economia global e o aumento de multinacionais não favorecem a diversidade dentro das empresas de uma forma mais natural?

Tapia: Como todo bom líder sabe, sem métricas e metas de negócio, os resultados não podem ser alcançados. Se a diversidade é fundamental para o crescimento e os lucros, trata-se então de uma estratégia de negócios.

Valor: O senhor é a favor de cotas que obriguem as empresas a terem uma determinada porcentagem de "minorias" em seus quadros?

Tapia: Sou a favor disso fazer parte do processo inicial de pressão, já que caso contrário nada vai mudar. Isso está acontecendo agora na Noruega para incluir mais mulheres nos conselhos de administração. Sabemos que as cotas não podem ser preenchidas de um dia para o outro, as cotas em vigor começarão a mover a montanha da marginalização. Mas uma vez que as montanhas começarem a se mover, recomendo abandonar as cotas exatas e rígidas, pois é aí que o sistema começa a cair em decisões distorcidas apenas para atingir um número. Considere a cota de deficientes no Brasil, por exemplo. Até agora, as empresas não estão nem perto de atingir os 5%. Portanto, esse percentual precisa ser mantido para forçar o sistema a descobrir o que mais precisa ser feito para apoiar aquelas pessoas. Mas conforme as empresas chegarem próximas desse número, pode-se mudar para uma métrica que demanda um aumento na representação sem ser muito específica sobre qual deverá ser o número exato.

Valor: É melhor ter uma equipe de alto potencial "homogênea" ou uma menos qualificada baseada na diversidade?

Tapia: Primeiramente, precisamos reconhecer que haverá muitas pessoas com habilidades que as empresas nunca tomaram conhecimento, visto que elas eram marginalizadas. Em segundo, muitos dos indivíduos que são bem qualificados serão considerados inaptos em função desses preconceitos. Em terceiro, sim, haverá algumas pessoas que não são qualificadas que serão contratadas. Mas, mesmo na força de trabalho homogênea há uma combinação de profissionais excelentes, medianos e ruins. Não vamos usar um critério de avaliação diferente, esperando uma taxa de sucesso de 100% nas contratações de equipes diversificadas para considerar esses programas bem sucedidos.

Valor: A diversidade dentro das empresas deve aumentar, uma vez que os jovens da chamada geração Y, que serão os futuros líderes, são mais abertos e familiarizados com essa questão?

Tapia: Será mais fácil para a geração Y, visto que eles cresceram com a diversidade. Mas é preciso saber como gerenciar isso nas realidades complexas do negócio. Não se trata apenas de sensibilidade e tolerância, mas de possuir as competências interculturais para gerenciar as diferenças. Não é algo que sabemos como fazer automaticamente.

Valor: Quais são as habilidades necessárias?

Tapia: Primeiramente, é preciso saber tudo sobre mim. Cada um de nós precisa ter a habilidade do autoconhecimento: no que acreditamos, por que acreditamos nisso, de onde veio essa crença. Então, é saber tudo sobre eles. O que precisamos aprender sobre as muitas diferenças no mundo: como são os indianos? E os americanos? Mulheres? Homens? Gays? Deficientes? Cariocas? Paulistas? Mineiros? Como suas experiências únicas no mundo afetaram como eles pensam, no que acreditam, o que necessitam? E, finalmente, é tudo sobre nós. A habilidade de conseguir chegar a uma solução que leva em conta as diferenças - algumas aparentemente irreconciliáveis- e transformá-las em soluções.

Valor: Esse conhecimento se tornará essencial para os líderes?

Tapia: Quanto mais diversificada a força de trabalho se torna no Brasil e no mundo, maior a necessidade de todos saberem como gerenciar essas diferenças. Recentemente ouvi um gerente muito bem sucedido de uma empresa brasileira que foi enviado para os EUA e estava fracassando. A razão é que, embora tivesse tolerância e até sentimentos afetuosos perante os americanos, a cultura e o ambiente de negócios naquele país são muito diferentes do que ele conhecia e tinha vivenciado até então. Ele chegou a dizer aos seus chefes no Brasil, "eu simplesmente não sei o que fazer". Todos os profissionais, mais velhos e mais jovens, vão precisar da competência intercultural para ter sucesso em um mundo mais diversificado.

Valor: A diversidade é ainda menos vista no alto escalão das companhias? Por que isso acontece?

Tapia: A liderança de hoje se parece com a que iniciou essas empresas e a tendência humana é de gostar e de confiar mais facilmente nas pessoas que se parecem e pensam como nós. Nos negócios, o legado da herança masculina e européia é o que ainda temos e vemos hoje. Da mesma forma, mesmo nas empresas e setores onde as mulheres finalmente fazem parte da força de trabalho, a liderança não acontece de um dia para o outro. No entanto, dados da organização de pesquisa Catalyst demonstraram que as empresas com mais mulheres na liderança e nos conselhos de administração apresentam um crescimento e margens de lucro superiores.

Valor: Existem regiões onde encontramos maior ou menor resistência por parte das empresas em relação a uma força de trabalho que contemple a diversidade? Como o senhor vê essa questão, por exemplo, nas empresas da América Latina e do Brasil?

Tapia: A resistência é generalizada. Em toda a América Latina ainda vemos a discriminação e marginalização com base em estereótipos, machismo, racismo e religião. Mesmo nas empresas onde a questão não é o preconceito, trata-se da competência de diversidade dos líderes. Se os líderes não dominam as questões de diversidade, então vão, no mínimo, continuar resistindo por meio da inércia.

 

 
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